Nenhures

Estava-se bem no meu quarto mas já não se estava tão bem-bem na minha terra. Verdade, verdade, é que me senti um pouco desajustada. E até sinto um pouco de vergonha ao confessar que muito da conversa que tive com antigas amizades me passou um bocadinho ao largo, simplesmente porque aquela já não é a minha vida. Eu não estou nada interessada nos rapazes da aldeia ao lado e dos namoros dos outros e quem esteve presente na missa de Domingo. Ah pois é! Que tive de ir à missa de Domingo ou a minha mãe ía ser falada para o resto do mês. Que seja e lá fui a fingir que me encaixava. A seguir ao almoço apanhei o combóio e regressei. Carregada que nem uma mula de transporte. Que os meus pais acham que eu passo fome, e então mandaram-me a despensa para seis meses, mais uma bôla de carnes e um presuntinho para a senhoria, para ela me tratar bem, palavras deles. E pronto, agora que já cá estou de novo, já tenho saudades outra vez. Na minha terra, quando se pergunta a alguém onde vai e esse alguém não quer responder, diz Nenhures. Mas para mim, hoje e agora, Nenhures, é estar aqui e lá ao mesmo tempo, que era mesmo o que eu gostava. E talvez não o dissesse se mo perguntassem...

 

O galo

Explicar aos meus pais que se viraram do avesso para me pagarem um curso superior, que eu cumpri, que me tornei doutora como eles dizem à vizinhança, e que estou sem emprego porque fui despedida porque é a forma como entendem o termo de um contrato, é dose. Esta não é a maneira como eu tinha imaginado a recepção da minha pessoa no regresso às origens, em definitivo! Se eles estão decepcionados eu também estou. Voltar a casa após tanto tempo sem cá vir, é doloroso. Primeiro, pelas saudades que tinha de tudo isto, do meu quarto, dos meus pais, do verde à volta como não há mais nenhum. Depois, porque só me apercebi deste aperto quando aqui cheguei e os abracei e senti a falta que tinha de todas estas pequenas coisas que durante anos me saturaram. E finalmente, pela desilusão que lhes causei, tanto mais que eu não fui agente no desenrolar do processo, sendo a principal vitima do mesmo. Mas há coisas boas. Despertar ainda noite pelo grito do galo, conferir a exactidão das horas no telemóvel e saber que todas as madrugadas se esganiça pontualmente sem falhar. Aconchego-me na minha cama e sinto-me segura, tão segura e tranquila, que sou pequenina outra vez.

 

Malas feitas

Falta pouco e a minha ansiedade é enorme. De tal forma que já fiz as malas. Parece que assim quando completar o último dia de trabalho as coisas andam mais depressa e eu chego mais rápido a casa. E casa aqui, é a das minhas origens, o sitio onde nasci, onde estão os meus pais à minha espera. Sabe-me bem pensar isto, estarem à minha espera. Aqui ninguém espera por mim, ninguém sabe de mim, ninguém procura por mim. Só a minha senhoria, mas não é a mesma coisa. Ter as malas prontas para ir dá-me uma sensação de ser benvinda, ter braços abertos para me receberem. Acho que me estou a tornar lamechas. A cidade tornou-me insensível e sensível. Dois lados opostos que só vieram à superfície quando houve necessidade de eu ter uma mala para partir e regressar.
 
 

Esfolar o rabo

Últimos dias. E nunca me custou tanto. Tem sido um tormento ir para aquele purgatório. Parece que me tem calhado os clientes mais dificeis, e os colegas tem-me feito a vida negra. Ou então sou eu que já não vejo aquilo com bons olhos e tudo me parece custoso. Espero ansiosamente o último dia para bater com a porta e nunca mais na vida me meter numa coisa daquelas. Mas que sei eu? Nunca digas desta água não beberei, pois posso muito bem ir lá voltar a bater com os costados, ou a coisa semelhante. Não posso é ficar desempregada, isso não. Tenho-me lembrado muito do que a minha mãe diz quando mata a criação, especialmente os coelhos. Que o que custa mais é esfolar o rabo. Depois de se lhes retirar a pelagem, quando se chega à parte final, já se está cansado e farto da tarefa e ainda resta aquele coto para esfolar. A mim, falta-me este rabo. Não há meio de lá chegar e arrancar-lhe o pêlo de vez. Que saturação!
 
 

Com a graça de Deus

A falta de perspectivas na minha vida obriga-me a dar conta da dita mais do que eu quero e gosto. Logicamente, tive que por a minha senhoria a par da minha situação, já que estando a minha economia em estado periclitante, a dela consequentemente, poderá vir a agravar-se. Não sei se não terei que ir procurar asilo para outro lado, embora a idéia não me agrade, não a posso afastar. Ela fez chá, bolinhos e lanchámos. Eu cada vez mais atrapalhada e a sentir que me ía engasgar. Será que ela percebeu, que eu lhe disse que muito provavelmente, terei de me ir embora e ela terá de encontrar outra hóspede?! Percebeu. Mas com a graça de Deus, tudo se vai arranjar, respondeu ela. Vai rezar muito por mim, que tem muita fé, e eu mereço. E ía dando palmadinhas na minha mão à medida que me dizía estas coisas. Ora eu não sou nada disto. Quer dizer, sou baptizada, fiz a primeira comunhão, a comunhão solene e os meus pais até queríam que eu seguisse para a crisma, mas por essas alturas eu estava espigada, e os estudos ocupavam-me o tempo e serviram de adiamento ao que não me interessava. Não quero saber de religiões. Mas a minha senhoria, com a graça de Deus, diz-me que posso ficar, a casa é minha, não quer mais ninguém, e tudo vai dar certo para mim, ainda vou ter um grande futuro. Ámen!
 
 

Não desejes muito que pode acontecer

Acabaram-se as dúvidas existenciais: no fim do mês vou engrossar o número dos desempregados. Tanto pensei no assunto, tanto no íntimo desejei que acontecesse que me fizeram a vontade. Tudo dentro da lei. Fui chamada para comunicarem que já não precisavam mais dos meus serviços, que agradecíam muito, e toma lá o envelope com a notificação e põe-te a milhas. Verdade, verdadinha, sinto-me leve, uma tonelada saíu de cima dos meus ombros, foi um tempo horrível a fazer uma coisa que detestei entre pessoas com quem nunca criei nenhuma empatia. Agora acabou. E o ordenado também. E isso assusta-me. Voltar tudo ao principio, procurar, ir a entrevistas, levar com a porta na cara, a fila para o subsidio de desemprego, falar com outros que estão ainda em pior situação que a minha, chegar a casa deprimida, uma casa que não é a minha. Mas quando o fim do mês chegar vou à minha terra, dormir no meu quarto, matar saudades dos meus pais e dos meus amigos. Tanto que ansiei por fazê-lo e agora estou à beira de o concretizar. Há que ver o lado bom das coisas. E são 2em1!!!

 

A imigrante

Enquanto não saí do lugarejo onde nasci não sosseguei. Sempre me senti deslocada, sufocada e a ansiar por vir para a capital. Lembro-me que em miúda via as imagens na televisão e dizia à minha mãe que quando crescesse havería de morar ali. E o ali, era claro, a cidade grande, cheia de confusão, carros, muita gente a circular, tudo em antagonia ao pacato e verdejante sitio onde morava e onde todos se cumprimentam porque todos se conhecem. Na verdade eu não sou diferente dos outros. Todos os jovens da minha aldeia assim que tiveram idade suficiente para o fazer, emigraram. Eu apenas escolhi fazê-lo cá dentro e com uma licenciatura, porque decidi que não me havería de sujeitar a fazer trabalhos num país estrangeiro que não fizesse no meu. E por outro lado, nunca coloquei as coisas de forma a pensar em voltar para as origens, com uma casinha restaurada e um Mercedes em 3ª mão. Mas tudo é tão relativo. Porque cada dia que passa, tenho mais saudades da minha terra e tudo me parece mais longínquo.

 

Justiças

De vez em quando encontro-me com o pessoal que trabalhou na publicidade. Estamos todos em diferentes actividades profissionais. Vamos tomar um copo, pomos a conversa em dia, rimos dos disparates antigos, contamos as parvoíces que fazemos actualmente e falamos dos nossos ódiozinhos de estimação. É uma maneira de purificar a semana e a alma. Não faz bem nem faz mal mas alivia. Foi num desses encontros que uma amiga falou de uma colega de trabalho e das dificeis relações entre elas. Do tormento que era todos os dias ir trabalhar e das intrigas que se fazíam, pondo em risco o seu emprego. Todos lamentamos. Eu falei de situações semelhantes lá pelo meu lado, mas nada que atingisse tais dimensões. A outra estava mesmo desesperada, de tal forma que desatou num pranto e confessou que pensava em despedir-se, largar tudo por já não conseguir aguentar mais a vivência com a megera que diariamente lhe sabotava o serviço. Foi então que um dos rapazes disse que se ela quisesse, ele podía tratar do assunto. Só precisava de saber quem era a outra. Ficamos todos silenciosos. Ele arranjava alguém que lhe trataría da saúde, que ela nunca mais havería de ter vontade de se meter com a nossa amiga. Esta abanava a cabeça, dizia que não, isso não, nem pensar, mas depois já não se negava tanto e já não se agitava tanto, só lhe caiam as lágrimas pela cara abaixo. Eu engoli em seco, bebi o resto da minha cerveja e resolvi por a venda da justiça e ficar ceguinha ao desfecho do assunto, vindo-me embora.
 
 

Carochinhas do Sec.XXI

O que este meu século tem de bom é que o que acontece é falado meia-dúzia de dias e não se fala mais nisso. O que o meu tempo tem de mau, é que a memória dos homens é muito curta e leva-os repetidamente a cometer os mesmos erros sem retirar nenhum ensinamento deles. Este episódio da gravidez da minha colega, de inicio chocou-me, achei o supervisor um malandro, o macho que engana a inocente virgem. Mas bem analisadas as coisas, será que não foi ao contrário? É que tenho vindo a aperceber-me que cada vez mais, os homens estão a perder o terreno em matéria de conquista no campo sentimental e a ala feminina está muito mais aguerrida, tendo passado ao ataque e até substituído os papéis quando pertencía a eles, homens, desempenharem o de cortejador. Agora são elas que declaradamente dão em cima, procuram, cercam, pressionam. Dito desta forma, não parece abonatório para o género a que pertenço, mas a realidade está aí para as provas conclusivas. E no caso em apreço, reunidos os factos, tudo leva a concluír ter-se tratado de uma premeditação, ou seja, uma gravidez planeada. Resta saber o que vai acontecer daqui a nove meses. Quer a ela, quer a ele.

 

Cenas da vida real

Pleno horário laboral, headsets, o maior paleio, em que posso ser útil, a conversa do costume, aguarde um momento e de repente uma gritaria que ficou tudo num silêncio de cortar à faca. Alguns levantaram-se, risinhos, os clientes em linha à seca e uma operadora aos guinchos de dedo apontado para um supervisor que em passos largos abandonou a sala. Uma outra supervisora bateu as palmas e mandou que retomassemos as linhas e o serviço, que estava tudo bem. A operadora foi levada por um braço, em lágrimas e aos berros. Lembrei-me da minha figura quando me negaram o emprego para a vaga de marketing e tive pena dela. Pensei que devía ter sido despedida. Depois pensei que devía ter dado uma nega a algum avanço mais ousado do supervisor, e murmurei bem-feita e senti alguma satisfação vingativa pela cena pública. Só à hora do almoço, na cantina, e com o tacho à frente é que perdi o apetite quando os boatos começaram a passar como pão que se distribui em pedaços pelos esfomeados. Grávida. Estava grávida do supervisor casado e pai de dois filhos. Não acreditei. Mas era mesmo verdade. Nesse dia, na casa de banho e para quem quisesse ouvir - e ela quería que todas a ouvissem - o supervisor havía-lhe feito juras de amor e promessas de largar um matrimónio estafado e sem salvação, só para ficar com ela, operadora jovem e bonita. Lavei os dentes mas a sensação de mau hálito não me largou o resto do dia.
 
 

O contrato

O meu contrato de trabalho, assim como o da maioria do pessoal que trabalha comigo é a termo certo. Sabemos que temos duas saídas: Ou é renovado por mais um período ou vamos para o olho da rua. Por esta altura, está a entrar uma revoada de carne fresca o que equivale a dizer que outros tantos vão embora. Não tenho ilusões, quando chegar a altura de caducar o meu contrato, uma das duas hipóteses me há-de calhar. Já vou na segunda renovação e o máximo que o pessoal aqui chegou foi à terceira, depois disso ou passam a efectivo ou é mesmo o limite. Ter a vida a prazo é tramado. Não temos como planear seja o que for, ter expectativa para alcançar ou programar fazer, porque todo o amanhã está condicionado a um passado recente que nem sequer depende muito de nós. De mim, por exemplo. Tenho feito tudo dentro das regras e isso não tem impedido ser chamada a atenção pelos supervisores, por isso vá lá saber-se o que devo fazer. Mas a verdade, cá no meu íntimo, é que desejo que este maldito contrato que assinei com o diabo, seja rasgado e eu seja mandada embora. Por mim, não tenho coragem para o fazer porque preciso do dinheiro e não posso continuar a pedir ajuda aos meus pais. Mas por outro, sentir-me-ei livre e leve, se essa decisão caír sobre mim sem vir de mim.

 

Os mistérios da escrita

A minha tia a fingir tem uma história de vida envolta em mistérios. Ou talvez não, talvez seja só a minha imaginação muito fértil e que já me causou muitos dissabores na mesma proporção que me leva a tirar esta brilhante conclusão. Mas não deixa de ser estranho, que uma mulher que sempre teve tudo para dar certo na vida, acabe na idade sénior, sózinha, num casarão imenso, aflita com contas para saldar e que tenha que repartir o seu espaço com estranhos para manter alguma dignidade e sustento. Que na verdade, eu sou uma estranha, ela não me conhece, e apesar do meu bom ar bem que eu a podía roubar ou até matar durante o sono. Mas o rumo da vida obriga as pessoas a confiarem no incerto e a tomarem como certo caminhos desconhecidos, o que me deixa completamente desconcertada. Na verdade, eu também tive que confiar nela e esta coisa de relações bilaterais às cegas põe-me doida, se começo a pensar muito nisso... A minha tia postiça quando tinha a minha idade nunca precisou de ser hóspede de ninguém. Nem ter sobrinhas de faz-de-conta. Sei que viveu sempre com os pais aqui nesta casa, nunca foi casada e pouco mais. Tenho muita vontade de lhe fazer perguntas. Mas também não quero desembrulhar o véu de mistério com que a envolvi.

 

Faz de conta que é uma casa

Habito numa casa que não é minha. Para ser exacta e precisa, vivo num quarto arrendado de uma casa de dimensões consideráveis, que por sua vez não é de propriedade da minha arrendatária. Ou seja, a Senhora que me alugou o quarto também paga o aluguer a um senhorio, esse sim, legal proprietário do imóvel onde ambas habitamos. É contra a lei, sim. Mas a vida é complicada e quando ela se reformou não teve outra maneira de enfrentar a crise se não esta: alugar um dos cómodos. Já lá viveram outras raparigas, há fotografias delas muito sorridentes. A minha senhoria chama-lhes as sobrinhas, as minhas sobrinhas, eu também sou uma. Finjo que vivo em casa da minha tia, é um acordo que temos. Tudo de palavra, nada no papel, nem mesmo a quantia que lhe pago religiosamente ao dia 28 de cada mês. Se lhe desse para me pôr fora não sei como ía fingir que sería uma sem-abrigo, porque sería realmente uma. Mas creio que isso não vai acontecer. Neste momento, eu sou também parte da sua subsistência.

 

(No) Swing

Já estou aqui à tempo suficiente para conhecer as regras do jogo. Sei com quem posso falar à vontade, com quem devo ter muito cuidado, quem devo contornar, evitar. E sei também que não devo fazer amizade com ninguém, é um pequeno universo cruel onde cada um faz por si e mesmo que dê a entender que está de boas comigo, na primeira oportunidade para se safar, não hesitará em me lixar para se sobressaír. Já o vi por mais de uma vez, até me pediram para ser testemunha abonatória a favor da vitimada, coisa de que me ausentei prontamente pois não quero tomar partido de ninguém. Andam todos a ver se conseguem nadar sem ir ao fundo, incluíndo eu, mas não sei até quando. E depois, há uma estranha onda de toda a ala feminina já ter andado enrolada com a masculina. E depois trocam de parceiros. E depois atiram-se aos mais novos como carne fresca, iniciando um novo ciclo. Também tentaram comigo e eu fugi a sete pés assim que me apercebi dos emails a atacarem o meu posto. No topo desta dança estão os partenaires dos supervisores, que também não fogem a um passinho. Não há condição social de casado ou solteiro que impeça o avanço a não ser o próprio a recusar. Cada vez mais sinto que vivo numa ficção. Não fora o dinheiro que preciso.
 
 

(No) Stress

Aqui a distinção entre pessoal menor e supervisores é muito mais vincado do que na distribuição de publicidade. Aqui não há misturas. Se temos necessidade de falar com o superior, primeiro temos de pedir autorização por e-mail e só depois de recebermos um lacónico ok com o timing, é que temos direito à fala. O que equivale a dizer, que muitas das vezes o timing certo já se foi, porque já não precisamos de ajuda. Mas há vezes, em que os superiores tiram o dia para se passearem entre nós, meros operadores telefónicos, deslizando como se não tivessem pés, olhando ao redor sem se dobrarem e sem fazerem nenhum comentário. Nunca há um dia certo para este acontecimento, o que nos deixa a todos enervadissimos. Qual é o objectivo? Não sei. Nas avaliações e escutas periódicas que são regulamento da empresa, para aferição do bom desempenho do colaborador (palavras do supervisor) nunca trouxeram este desfile da parada à conversa. Mas tenho para mim, que a intenção é mesmo pôr-nos sob pressão para ver se quebramos.
 
 

As verdades

Passo os meus dias sob lampadas que me dão uma excelente luz artificial e tenho ar condicionado que me impõe um casaco de malha desde que aqui entrei. Não sei se é dia ou noite, até que chega a hora de picar o ponto e saír. Tenho vezes que dou comigo, no caminho para casa, a sentir-me como uma galinha de aviário. Só não sei quando vai ser o meu momento da canja. A verdade é que o escrever tornou-se um suplicio, por isso o tenho feito tão pouco. A verdade, é que o dinheiro que os meus pais gastaram para eu poder ter um curso, foi mal empregue. A verdade é que tenho saudades de casa e de uma canja feita com galinhas de verdade. Não de histórias de galinhas de ovos de ouro em que a menina veio para a cidade e todos os seus sonhos se concretizaram.
 
 

Adrenalina mais

O que me levou a largar a publicidade de porta em porta foi uma cena memorável. Poderão passar muitos anos que nunca na minha vida hei-se esquecer aquele fim de tarde. Estavamos todos cansados e aguardavamos apenas pelos dois últimos do nosso grupo para reunidos, metermo-nos na carrinha e regressarmos ao escritório. Era a volta de todos os dias. O telemóvel de um dos rapazes tocou. As interjeições dispararam e tudo a perguntar o que se passava. Era uma luta, uma batalha, uma guerra. Como assim? Dois grupos de heavy metal havíam-se encontrado e o confronto tinha sido inevitável. Os nossos retardatários pertencíam a um desses rivais e estavam em minoria. Não havía nada para pensar nem tempo a perder, corremos que nem uns loucos como se fossemos a infantaria. Até hoje não consigo perceber de onde apareceram tantos e em tão pouco tempo. Era uma enorme mancha negra em que os cintos e as correntes de metal reflectíam a luz do fim de dia, reluzentes, eu piscava os olhos e dava pontapés, socos, mordía braços, berrava, corría e atirava-me sem ver para onde. Havía papéis de publicidade espalhados e a esvoaçar, roupa rasgada, gente no chão, gente à janela. E de repente ouviu-se a sirene do carro da policia e em menos de nada toda a gente desapareceu. Alguém que eu nunca tinha visto, deu-me a mão e correu levando-me a reboque. Estivemos escondidos dentro de um caixote de lixo durante duas horas. Quando saímos pagou-me uma cerveja e bateu com o punho no meu ombro ao de leve. Era o inimigo.

 

Antes e depois

Ao fim de tanto tempo a minha vida não melhorou muito. Já não distribuo publicidade pelas caixas de correio, agora trabalho num call center. Vai-se a ver, é mais do mesmo. Ou talvez não, se calhar até piorei, deixei de andar solta e ao ar livre, a ver a cidade, a contornar os horários. Trabalho actualmente cinco dias por semana, estou sentada sete horas com dois intervalos de dez minutos, um no período da manhã, outro na tarde. Tive que educar a minha bexiga e os intestinos para obedecerem a estas pausas, tal como se fazem aos cachorros quando aprendem a vir fazer as necessidades à rua. Tenho uma hora de almoço, que levo de casa e aqueço no emprego, mas como há muita gente já me deixei disso e levo tudo embrulhado em jornais, conforme me ensinou a minha senhoria. Não posso responder torto nem fazer observações espirituosas nem desligar a linha quando me chamam puta ou quando me convidam para lhes fazer um fellatio. As chamadas são gravadas. Já fui chamada várias vezes à atenção e insinuaram que o meu tom de voz é convidativo a este tipo de situações. Ganho pouco mais do que no emprego anterior. Tenho saudades daquela malta.
 
 

Solidões

Andava eu na minha sina, suada e a cheirar a porco, os pés em lume, um sol impiedoso que nem projectava sombra do meio-dia aos prédios lado a lado que corríam a rua estreita, quando ouví o assobio do meu parceiro que fazía a perpendicular. O sinal era para descansar, fumar um cigarro, encostar, qualquer coisa menos continuar nos próximos 10 minutos. Assobiei. Procurei uns degraus, sentei-me e descalcei o que me parecia uma tortura. Doia-me a cabeça e tinha a boca seca e sobretudo, uma enorme vontade de chorar. Porque é que tudo isto me estava a acontecer? Para que raio tinha andado eu tantos anos a queimar noites, a estudar que nem uma louca para ter uma licenciatura e acabar a entregar publicidade manhosa, de porta em porta, sob risco de ser assaltada, violada, acabar desidratada ou até ser atropelada?! Não é justo. Uma enorme solidão caíu sobre mim e assobiei para o meu colega. Não conseguia continuar. Voltei a assobiar. Nada. Mais assobios e nadinha de resposta. Pus-me de pé, o par de ténis na mão. E uma voz nas minhas costas assustou-me. Era uma senhora idosa do R/C, janela aberta, que eu entrasse para tomar um refresco, que lá fora fazía muito calor ao sol do meio-dia. Agradeci e recusei, mas ela insistiu e disse para eu entrar e trazer o meu colega. Para lhe fazermos companhia, falarmos um poucachinho, tinha netos da nossa idade mas nunca estava com eles e tinha muitas saudades.
 
 

Se não tens cão caça com gato, se não tens gato caça com arma

Somos uma equipa. Dizem. Agressiva. Dizem. Pro-Activa. Dizem. O meu grupo é constituído por dezassete "correios". Quatro, somos mulheres, o resto é homem, miúdos a ganharem para a playstation e ainda os que tentam sacar alguma ajuda para a faculdade. Das mulheres, eu e outra somos solteirissimas, há uma em regime de ajuntamento (vive em casa dos pais dele) e a outra é casada, mãe e saco de pancada do marido que está sempre enfermo para bulir mas tem força suficiente para a sovar. No fundo, andamos todos ao mesmo: Sobreviver. Por isso, quando o marido da casada apareceu à porta do escritório no final do expediente, e todos nós com bolhas nos pés, desidratados, cansados e infelizes o vimos, apenas o ignorámos. Triste, achei-o um triste. A casada disse traste, que é que este traste quer, mas acabou por me fazer coro e sussurrou que tristeza. O marido vinha saudável nesse dia, berrava como um capado, ofendía-a, depois juntou-nos a todos no mesmo tom e a mulher agarrou as últimas forças e atirou-lhe o monte de papéis empilhados para o dia seguinte, aliás uma promoção valiosa, já que anexava uma amostra de shampoo para cabelos normais. Ele atirou-se a ela, tinha o cabelo oleoso. E próximos, mas tão próximos quanto sempre havíam estado, a mulher casada disparou a pistola que havía comprado com o salário dos dois últimos meses.