Se: É uma palavra gigante

O mal é as coisas começaram a fermentar na cabeça, a borbulhar, a vazarem até o conteúdo ser visível como uma idéia. Ou será um bem. Porque afinal, é assim que se avança, que se sai da cepa-torta. Estou cansada de ficar cansada. Cansada de não dormir, de me preocupar quando devia desfrutar da vida, das coisas que sei fazer, do curso que fiz porque amei, da pessoa que sou. Estou cansada do emprego que tenho, do pouco que ganho, dos receios de rir, de abrir a boca, do meu fato escuro de toda a semana. E se eu mandasse tudo às urtigas e procurasse outro emprego, outra vida, o meu eu que eu sei que vale e que sei que íam apreciar? Ai se! Se o se não fosse se, talvez eu já o tivesse feito há mais tempo, mas esta palavrinha minúscula, condicional como um muro, uma trave que me bate na testa cada vez que tento dar um passo e levo a mão ao bolso e sinto a magreza das moedas, o estomago a roncar e o pânico de não ter tecto... ai se eu acordasse agora, corajosamente, despedia-me da vidinha barata que finjo ter e partía à procura da riqueza do sou.

Curto e fino

Mês pequenino. Tal como o recibo de vencimento que vou tentando esticar, poupar. Fico sempre receosa que num qualquer dia apareça uma despesa de surpresa e eu não esteja preparada para a enfrentar. E depois tenha que pedir ajuda aos meus pais. Ou até mesmo a minha senhoria se aperceba da minha aflição e me socorra. É um tormento que me tira o sono. O dinheiro escapa-se sem controle por mais controle que eu lhe faça. Não me dou a devaneios, cortei com saídas ao fim-de-semana, faço as refeições pelo mais económico possível, adquiri um passe mais barato e um pedaço do trajecto caminho, chegando esfalfada ao escritório. Mas nem mesmo assim. Ganho o mesmo, só a vida enriqueceu. O meu recibo de ordenado é tão fino quanto a folha de papel que imprimo para lhe ver a magra quantia espremida entre os dias de calendário. Nem que todos os meses fossem Fevereiro e eu caminhasse por atalhos, não chego lá.

Ano Novo, contas velhas

Lembro-me quando era muito gaiata, e se aproximava o final do ano, como eu ficava esperançada numa viragem da vida em que tudo se transformava em bom, em melhor, tudo a partir daí seria bonito e fácil, e eu nunca mais esqueceria desse ano como o grande marco da minha vida em que tudo tinha mudado. Não sei onde fui buscar esta estória de fantasia, mas era uma coisa que repetia para mim como um alento todos os fins de ano, como uma mola para continuar e ter força para prosseguir. Também não sei a que altura deixei de acreditar. Mas talvez não tenha sido há muito tempo. O Ano novo rompeu e nada mudou, eu não fiz nenhuma lista de desejos para este e nem tive animação para pensar que agora é que tudo ía ser bom, bonito e fácil. Estou como estava ontem: Sem vontade de nada e desejos do que não tenho.
 

Ho Ho Ho-Ha Ha Ha

A verdade do escrever é que é preciso ter disposição para o fazer. Quer dizer, para escrever. Porque se a vidinha corre mal, santa paciência! Não há escrita que apeteça. E a mim não me tem mesmo nada apetecido, por que a verdade da vida é cruel, dura e mastiga todos os dias, obrigando o comum dos mortais a ir para a cama como um nó no estomago pela injustiça do dia passado. Chegámos a Dezembro e a firma achou por bem contemplar os seus leais funcionários com um voucher de compras de supermercado que não passa de uma humilhação. Pelos nossos esforços e dedicação. Ah! Mas vão oferecer-nos uma festa de Natal, aqui no escritório, com direito a comes e bebes, tudinho pago pelo bolso do Dr. Ora não é uma gentileza? Claro que sim, somos todos uns mortos de fome, e ao menos nesse dia enchemos a malvada à conta deste benemérito. Só quero ver quem vai ser o Pai Natal... HO HO HO e eu rio, rio muito com esta pouca vergonha toda.
 

Ingenuidades

Tal como eu temía, andei a trabalhar para o boneco, porque todos os Sábados e horas-extra não foram contemplados no meu vencimento. O recibo vem magrinho como sempre. Certo mas sem a justiça que lhe é devida. E é isto um escritório de advocacia. Quase parece uma piada de mau gosto. Acho que da próxima vez que me vierem convocar para mais uma estopada, vou estar doente, ou indisponível, ou com afazeres inadiáveis, ou com o funeral da minha tetra avó que Deus a tenha em descanso e benzo-me. Esta pouca vergonha já vem a arrastar-se e não há um pingo de decência para, no mínimo, darem uma justificação, uma mentira, uma palavra, qualquer coisa que satisfaça quem apalpe a merda do recibo de salário e se enfureça e entristeça com a penúria dos números. A senhora do fatinho chama, traça as pernas e apenas diz baixinho que conta com a minha presença. Mais nada. Nada de falar em compensações ou tomar nota do esforço que está a ser pedido, nada. Não sei o que os outros andam a fazer, mas duvido que estejam satisfeitos. Ou será que eu sou a única que não estou a ser paga?? É que ainda não me tinha lembrado desta hipótese, parva, ingénua que sou!

Que vida

E continua o baile! Ou seja, para além do tempo depois do horário normal, agora é ao Sábado. E no recibo de salário é sempre o mesmo. Perguntei ao meu colega se sabía de alguma coisa, mas como o serviço dele é diferente e não tem ficado nem vindo mais um dia, não sabe de nada. E ao resto das pessoas não faço perguntas, não confio, tenho medo que vão direitinhos à senhora do fatinho e aí é que eram elas. Por isso, trabalha burra, mas uma raiva está a apoderar-se de mim que já ando a fazer cara feia e sei bem que um dia destes, sem conseguir segurar a língua, a pergunta me vai saltar: Pagam ou não? É que isto de andar a trabalhar à borla é muito mau e cansa muito, além de que me deixa contrariada, tenho mais que fazer e a minha vida não é aquele maldito escritório. Que vida esta. Será que nunca me vou sentir realizada? Que decepção que esta minha vida me está a saír.
 

Amocha

Não há fome que não dê em fartura. Andava eu a queixar-me do pouco que havía para fazer, pois agora é uma correria, não há mãos a medir, e até já tivemos de ficar depois da hora para acabar algumas coisas com prazos. Tramado! Resta saber se isto se vai tornar um hábito ou se foi só por causa do avolumar do expediente. Ou se me vão compensar. Ou se nada. Eu sei que não estou em condições de regatear ou impor, mas pelo que me pagam e pelo que exigem, ainda mais em horário extra-laboral, só lhes ficava bem pagarem. Porque afinal, convenhamos: Isto é um contrato. Eu dou o meu trabalho, eles dão o dinheiro, é assim que funciona. Mas não posso abrir o bico ou lá me ponho em risco de novo e sei bem como está o mercado de empregos. É tudo uma tristeza, aproveitam-se desta maldita crise para explorarem toda a gente. Amocha. É o que digo para mim e sigo.
 

Uma pedra no sapato

Felizmente que o mês de Agosto acabou, toda a gente regressou ao escritório e já há o que fazer. Detesto estar a olhar para o ar e fazer de conta que estou ocupada, como o tempo demora a passar, já para não falar que não tenho jeitinho nenhum para disfarçar que o trabalho escasseia. Mais ainda que para mim, é um risco tremendo... Olha se acham que eu sou dispensável?! O J regressou animadíssimo e cheio de aventuras, muito bronzeado. E muito desligado. Se não fosse eu a telefonar, acho que ainda estava à espera para saber de tantas peripécias que me contou. Especialmente, envolvendo uma certa rapariga a quem se refere com especial relevo e especial entoação na voz. Perguntei quem era, mas para surpresa minha desviou o rumo da conversa não dando seguimento ao assunto, o que me deixou desconfiada. Porque razão não me há-de querer falar dos seus novos amigos, da sua nova amiga? Que estranho. Uma sensação incómoda deixou-me de pé atrás e depois daquele episódio, decidi que não ía ligar mais. Se quiser, ele que me procure. Não são ciúmes porque o que me liga a ele é verdadeira amizade, mas tenho uma séria dificuldade em confiar seja em quem for, e se ele foi o meu eleito, não consigo aceitar que eu não o seja para ele. O problema é meu, então eu afasto-me.
 

O Verão e a cidade

Agosto é um mês quase morto em termos de serviço. A maior parte dos funcionários do escritório estão de férias obrigatoriamente durante 15 dias, a outra metade é da escolha deles. Claro que eu, que sou a escrava e ainda estou dentro do contrato não tenho direito a nada. Mas também em termos de trabalho não tem havido muito a fazer e logo que aparece, eu dou despacho e fica feito, o que significa que o resto das horas é olhar para as moscas o que ainda me custa mais a passar o tempo. Aliás, toda a cidade parece ter fugido para ir de férias menos eu. A maior parte dos sítios onde costumo ir estão fechados e a minha vida tem sido trabalho-casa, casa-trabalho. Nem mesmo o J está cá, foi acampar para o Algarve. Já liguei para o resto do pessoal da publicidade para nos encontrarmos, mas também não tive sorte: Uns fora, outros como eu a trabalhar. Não se passa nada. Só durmo. Que tristeza.

Doente com o cú quente

Nunca fui de chiliques, depressões, fraquezas de espirito. Na minha terra e na minha família não havia tempo para esse tipo de coisas. Se algo estava mal, consertava-se e andava-se para a frente. Não sei o que me deu, mas seja lá o que tenha sido, a minha senhoria viu e tratou, deu-me o remédio, mandou-me a casa e resolveu a questão. Parti numa sexta-feira depois do dia de trabalho e graças a uma mentira da minha tia emprestada que ligou para o escritório a dizer que eu tinha passado mal a noite, ainda consegui a segunda de bónus, regressando nesse dia ao final, um risco que me deu algumas dores de barriga, mas pronto, já está. Os meus pais quando me viram à porta ficaram surpreendidos e a primeira pergunta foi se eu tinha sido despedida. Mas que linda recepção! Não, estou doente, vim a casa para me tratar, respondi. Mas a seguir desatei a rir e claro que a minha mãe disse o que sempre dizia quando eu era garota, doente com o cú quente, que é como quem diz, queres ficar na palha sem fazeres nenhum. Que interessa? Mesmo que eu conseguisse explicar (que não consigo nem a mim) eles não iriam entender a razão de eu estar ali com eles, a necessidades de os ver, de sentir o cheiro de casa, os lençóis da minha cama, o terreno lavrado nas traseiras com as couves empinadas, o galo a esganiçar-se quando toda a gente dorme na cidade. Tudo aquilo me fazia falta, fazer-me sentir parte de alguma coisa minha. Os meus castelos andam a desmoronar-se ao contrário de se erguerem, nunca poderei explicar isto a quem é da terra.
 

O toque de uma mão

Não sei se é do calor, se foi da história do jardineiro, mas não me ando a sentir nada bem. Ando muito cansada e todos os dias para me levantar é um frete. Tudo me parece um custo e nada me merece a pena. Vou trabalhar já a olhar para o relógio e a fazer o cálculo a quanto tempo falta para me libertar daquilo tudo, da roupa, dos sapatos, do tormento de me enfiar no metro a abarrotar e regressar ao meu quarto. O J tem-me desafiado para saírmos e conversar mas não me apetece falar. Não me apetece abrir a boca. Não porque não tenha o que dizer, simplesmente não sei por onde começar, ou simplesmente porque se começar tudo vai saber a queixinhas e lamúrias e pressinto que vou caír num pranto sem fim. Ninguém tem que aturar este tipo de coisas, nem mesmo os amigos, nem o J, era o que faltava, saírmos para levar com uma chorona. A minha senhoria pediu-me ontem, depois do jantar, que eu ficasse sentada com ela à mesa. Trouxe um bolo de canela feito por ela. Partiu duas fatias e começou a falar. Que eu devía ir a casa. Não tenho férias, só depois de 6 meses do contrato, uns dias. Não, agora, num fim-de-semana, que se o dinheiro é o problema me empresta. E pôs a mão dela sobre a minha. Não sei que me deu, rompi a chorar que nem uma parva. Levantou-se, veio por detrás de mim e entrançou-me o cabelo, dizendo que me ajudava a fazer o saco para a viagem.
 

O jardineiro

Há factos da vida por serem tão fantásticos, parecem cenas de filme e a que vou contar é uma delas. Esta semana apareceu no escritório um rapaz que já aqui trabalhou. Toda a gente lhe fez uma grande recepção, incluindo o Dr.. Grandes abraços, muitos beijos, beijinhos, apertos de mão, uma festa. Mas quem é esta figurinha, pensei eu. Esta figura é o antecessor do meu colega que anda na rua, nas Conservatórias, nos Bancos. Ao que me contaram, não era lá grande coisa como funcionário. Chegava tarde, esquecia as tarefas, documentos, perdía papéis e no final do 2º contrato, foi para o olho da rua. Ou melhor, comprou um bilhete de avião para a Holanda e foi de férias. Estou a ver o estilo, disse eu para comigo. Mas enganei-me, que isto de ver a embalagem nada tem com o carácter. O rapaz tem pinta de artista, mas cabeça não lhe falta, e sorte, muita sorte, porque aficionado por floricultura, dedicou-se a tratar do jardim de uns ricaços lá pelo País dos tamancos. Como? Insinuou-se, isso mesmo. Foi daqui sem cunhas, foi de férias como já referi, viu o jardim, entrou, analisou as flores e fez uma proposta ao dono da casa, tratou de tudo e no final apresentou um resultado surpreendente. De tal forma que o senhor recomendou o seu trabalho a outro, e este a outro e por aí fora, e vai daí o rapaz pediu um subsidio ao fundo comunitário que lho concedeu, abriu uma empresa e hoje é um requisitado jardineiro na Holanda. Tudo isto em 3 anos. Fiquei a sonhar. Fiquei feliz e depois tão deprimida, mas tão deprimida que me fartei de chorar antes de adormecer e ter um pesadelo horrível com tulipas gigantes a engolirem-me.
 

Vidinhas

A minha vida não mudou nada desde que tenho este novo contrato. Continuo a fazer as mesmas coisas, só que claro, com muito mais desenvoltura. Uma e outra actividade novas foram introduzidas no meu dia-a-dia com a experiência que entretanto tenho vindo a adquirir e a linguagem que por aqui se usa, códigos indecifráveis para mim no inicio, são agora termos perfeitamente normais ao meu ouvido e que eu utilizo tão bem como os demais. Mas não estou feliz. Esta não é a minha vocação. Dou comigo pasmada a pensar nos projectos que fazia na faculdade e a luz da fotocopiadora cega-me, levando o brilho de todos os sonhos que idealizei para o meu futuro. Sinto a minha vida pequenina, minúscula, amarrotada comos os papéis que deito ao lixo quando me engano nalguma minuta. Durante estes mais de 6 meses que passaram, não tive retorno de nenhum dos empregos para onde enviei o meu CV. Sei que estamos numa crise imensa mas não posso desistir e, embora tenha emprego, que é mais do que muitos têm actualmente, não quero acomodar-me a um sitio que nada me diz em termos de satisfação pessoal.

Claridade

Finalmente atendi o telemóvel ao J e combinámos uma saída. As coisas ficaram um bocado estranhas logo no inicio, nem eu nem ele sabíamos como é que havíamos de nos cumprimentar, por isso acabámos por dar uma cabeçada um no outro, com tanta coisa de evitar um simples beijo na face ainda foi pior. Ou melhor. Porque depois olhámos um para o outro a pedir desculpa feitos parvos e desatámos a rir da situação caricata em que nós próprios nos colocámos. E falámos francamente, como dois amigos, olhos nos olhos. Eu disse-lhe o que quero dele, mas também tive de ouvir da boca dele que pretende de mim o que um homem pretende de um relacionamento com uma mulher. É justo. Mas nada de promessas de parte a parte. Nem eu estou apaixonada por ele e lhe vou mentir quanto a isso, nem ele vai usar o que sente por mim para exigir mais da nossa amizade. Deixemos as coisas fluírem e se assim não resultar, azar, mas cada um terá de seguir o seu caminho. Beijou-me a testa à despedida. Ainda tremi, pensei que fosse de novo tentar alguma... Tenho de aprender a confiar.

Toca e foge

Ele liga e eu não atendo. Ele liga, eu atendo e digo que não posso falar. Ele liga, eu não atendo e depois mando sms. Ele liga, marcamos e depois eu digo que estou muito cansada e desmarco. Tem sido assim: Ando a fugir à policia, ou mais concretamente ao J. Não sei que lhe hei-de dizer. Não sei como hei-de olhar para ele. Não sei como lhe dizer que não quero relacionamentos na minha vida neste momento, que ele é um óptimo amigo, que preciso dele, mas nada mais que isso. Mas pressinto que a coisa não vai correr bem, que ele vai sentir que eu o usei, que quando não tinha mais ninguém e estava frágil, era para ele que eu ligava, era para ele que eu contava e chamava e estávamos nós de parelha na conversa, a rir, a ir ao cinema, a comer fora e agora isto, eu a dar-lhe com os pés. Mas não é! Então porque raio sinto que é?! Porque razão sinto este mal estar? Tenho de por um ponto final nesta situação, não gosto nada de coisas a meio, ele liga e eu fujo, parece o jogo do gato e do rato. E quem é o rato?

Surpresas

Que fazer quando tudo parece estar dentro dos eixos, e de repente se é surpreendido? Eu não gosto de surpresas. Gosto de saber com o que contar. Talvez por causa da educação que recebi, aprendi a contar comigo, a planear, e a resguardar-me defendendo-me, podendo deste modo saír antes que a situação se torne dolorosa para quem nela está. Mas desta vez não me apercebi de nada a chegar, nada, e fui apanhada desprevenida. Estava mais o J a regressar a casa depois de termos ido ao cinema e conversávamos sobre coisas de infância, o que cada um fazia de partidas. Ele é um menino da cidade, não sabe nada da vida do campo, e já há algum tempo que eu vinha a falar e ele a ouvir-me sem me interromper, até que a certa altura calei-me também só para ver a sua reacção. Foi quando aconteceu. Beijou-me. Fiquei sem saber o que fazer. Não foi mau nem bom, apenas fui apanhada de surpresa, não estava nada à espera daquilo. E ele a seguir também ficou surpreso com a minha atitude. Perguntou-me se eu não tinha percebido que ele gostava de mim. Dois amigos, somos dois amigos. E ele a dizer que sim e que não, que ele sentía mais do que amizade e eu só sentía era vontade de fugir dali para pôr a minha cabeça no sitio. Mas de onde é que tudo isto apareceu que não vi nada?
 

Baldes de água fria

A 1ª pessoa para quem dei a noticia depois de ter assinado o meu contrato de um ano (UM ANO!), foi para o J. A seguir liguei para os meus pais. Ficaram felizes. Mas acho que eu estava à espera que eles saltassem de alegria e fizessem uma festa, o que não aconteceu. Deram-me os parabéns, disseram muito bem e para eu ter juízo. Como se eu ainda fosse a garota de cinco anos que aprontavam ao Domingo para ir à missa da manhã. Sinceramente, fiquei desolada, como se um balde água fria tivesse sido despejado pela cabeça abaixo depois de me ter arranjado para saír. Porque será que não entendem que deveriam ter sido efusivos e partilhado da minha alegria, com muitos gritos e palmas, e pedirem-me para eu contar ao pormenor como tudo tido acontecido? Será que não percebem que isto é demasiado importante para mim??? O J ouviu-me e depois apenas disse que se eles tivessem reagido dessa forma, muito provavelmente eu não tería reconhecido os meus pais. É verdade. Eles nunca foram dados a manifestações ruidosas ou exibições de felicidade que os fizessem tirar os pés do chão. São pessoas simples que tiveram sempre uma vida dura num ambiente rural onde o silêncio obriga a calar as grandes emoções. Talvez eu já lhes tenha atirado grandes baldes de água fria. Quando ficava sem emprego. Quando pedia ajuda, dinheiro. Quando retornava a casa e me achavam magra e a passar fome, o que nunca aconteceu, mas eles achavam. Tal como eu agora achei pouco, mas é a dimensão da sua felicidade.
 

Monstros na escuridão

Esta manhã, estava eu a arquivar processos quando me vieram chamar. Primeiro, nem liguei e continuei com a minha tarefa que estava quase a acabar, mas a colega referiu que era a senhora do fatinho que estava à minha espera, e nesse instante, caíu-me tudo em cima: É agora. Acabou tudo. Comecei a suar estupidamente, dos sovacos, das mãos, e lembrei-me da cena dos gritos e dos seguranças a pôr a minha pessoa fora do edifício. Nem conseguia engolir, tinha a língua seca, um nó na garganta. Lá entrei, sentei-me e ela passou-me um montinho de papéis para a mão. Depois uma caneta, dizendo que era para assinar as três cópias. E eu a pensar que para me pôr no olho da rua não é preciso tanta papelada, só mesmo com estes malditos advogados. Li. Voltei a ler, não estava a perceber nada do que lía. E ela olhou para mim e deu-me os parabéns, que o meu trabalho era impecável e que a firma contava comigo pelo menos durante o tempo do contrato que agora assinava. Os seis meses de experiência não podiam ter sido melhores. Acho que não percebi. Então... e o sorriso cínico? A forma como me olhavam? Não é para me mandarem embora? Ai, estes monstros que eu inventei com o medo que tive... Que é que eu posso dizer?
 

Contratos, outra vez

Andava eu tão tranquila, tão descansada da minha vida, quando de repente me veio à cabeça que no fim deste mês acaba o meu contrato. É verdade que ninguém me disse nada ainda, nem demonstraram até agora estarem descontentes com o meu trabalho, mas também não mostraram o contrário, e nestas coisas de emprego, infelizmente, já tenho uma dose de má experiências em que tudo parece estar a correr às mil maravilhas e depois, rua! Talvez sejam macaquinhos na minha cabeça, mas acho que todos me olham com olhos piedosos, o que significa que vou mesmo ser corrida. Todos, menos a senhora do fatinho, claro. Essa anda com um sorriso estúpido cada vez que passa por mim, e já me apercebi que o tom em que me dá os bons-dias é cínico, o que significa que lhe deve estar a dar um gozo muito especial este meu sofrimento até aos últimos dias. A vida no contrato, o futuro a prazo, num tempo contadinho, é isto que tem sido a minha história, a minha verdade. 
 

Depressa e bem

Sem dar conta, o tempo tem passado depressa e bem. Ou melhor, o tempo no escritório tem corrido melhor e as horas não custam tanto a passar. Talvez porque tenha o incentivo de uma companhia, um amigo que me escuta, como diriam no call center, uma escuta activa, porque sinto que não é apenas um par de orelhas para quem debito as minhas ansiedades, não estou a falar para o boneco. E mais... para um boneco bem giro. O J - é assim que o passarei a chamar - é um homem bonito. Sem aqueles objectos de heavy com que o conheci, e um corte de cabelo decente, aposto que se deve ter torcido todo quando lhe cortaram as guedelhas que lhe davam pelo meio das costas. Mas aparte o aspecto físico, é um homem bom, tranquilo e que me inspira confiança. Temos saído bastantes vezes e sinto-me próxima dele como nunca me senti de outro ser humano. A minha senhoria diz que ando com um brilho especial nos olhos. Apenas ando a dormir as horas necessárias e bem. Estou bem.
 

Companhias

Depois de combinado, aconteceu: Fomos tomar café. E ainda outra vez. E de novo. E também fomos jantar. Nada de especial, fomos comer uma pizza. Mas para quem não sai, não tem convites para além dos contactos esporádicos que restaram da faculdade ou da malta da distribuição da publicidade e que cada vez menos ligam ou estão sempre ocupados com os empregos ou a casar ou mesmo a ter filhos, ou então voltaram para casa dos pais que isto está tudo pela hora da morte e todos deixámos aos poucos a liberdade que tanto custou a nós mesmos e aos nossos próprios pais, saír para uma pizza é uma acto social. E tem sido sempre bom. Aliás: Muito bom. Como as coisas são... Eu a pensar que ele era um verdadeiro monstro vestido de preto, sem nada na cabeça e só a ouvir aqueles estrondos guturais dedicados à violência e afinal, não. Nada disso. É formado em arquitectura, tem um discurso divertido, variado e é respeitoso. Não se pôs cá com brincadeiras de mãos que é uma coisa que eu odeio e da qual já tive uma experiência que quero esquecer. E conseguiu que eu falasse de mim, sem eu dar por isso, coisa que não gosto muito de fazer mas a certa altura quase que senti uma compulsão em fazê-lo, uma vontade tão grande que mesmo que não tivesse sido levada a isso eu quería, só para me sentir bem, completa. Ou talvez aliviada. Não sei. Mas sei que me senti acompanhada como já não me sentía desde que tinha saído pela 1ª vez de casa dos meus pais.
 

Encontros da pesada

Não há duvida que vivemos numa aldeia, uma aldeia grande vá lá, mas não deixa de ser um sitio onde volta e meia acabamos a esbarrar uns nos outros, inevitavelmente, mesmo que não sejamos levados a procurarmo-nos. Aliás, acho que quando nos dedicamos a essa tarefa de tentarmos encontrar seja quem for é quando nos saímos pior, e nos acasos é quando a obra sai com sucesso. Esta semana, depois de ter engolido uma sandes ao almoço resolvi saír do escritório e vir apanhar um bocado de ar. O dia estava frio mas havia um sol lindo e a conversa lá dentro é sempre mais do mesmo, tricas e boatos, fofocas da imprensa cor-de-rosa ou então coisa de serviço o que já não suporto. Vi as montras sem ver nada, e de repente tocaram no meu braço e disseram Olá. Um rapaz todo sorridente a olhar para mim e eu a dar voltas à cabeça a pensar quem sería, de onde é que eu o conheço que não me lembro. Eu tenho muito boa memória mas desta vez, nada. E ele a perguntar-me se eu não me lembrava dele. Senti-me corar como um tomate. Nada, tudo branco. Caixote do lixo, a ramona, a bófia, a birra que tomamos a seguir, não dizia nada??? Ah! O heavy que se tinha escondido comigo no latão do lixo! Mas este não é o mesmo! Para onde foram os cabelos até meio das costas? As pulseiras de picos, as correntes e o total black? Armazenados. Menos o cabelo, claro. E ria. Está a trabalhar uma firma de publicidade e esse look era muito heavy para eles, teve de o dispensar. E tomarmos um café num fim-de-semana?
 

Tudo passa

Tudo passa. Umas vezes mais devagar, outras mais rápido, umas vezes com mais custo e de outras parece que nem nunca aconteceu. Mas este ano vir embora logo a seguir ao Natal, despedir-me dos meus pais, da minha casa, do meu quarto e até do galo a esganiçar-se todo foi uma dor que me permanece cá por dentro e que até hoje me faz chorar todas a manhãs logo que acordo. É por isso que tem sido uma correria e não tenho escrito, ando sem tempo para nada, a minha vida está desorganizada e eu não tenho ânimo para a compor como era. Tudo me parece estar a caír aos bocados e na verdade não me ralo, não quero saber. A minha senhoria diz-me que isto passa, que tudo passa, que é só uma fase que acontece logo a seguir a se ter estado com a família, e que eu a devo considerar como uma segunda mãe. Ela tem-me ajudado tanto. Mas não é a minha mãe. Nem mesmo a segunda ou a última que fosse. É que se calhar nem tudo passa.

 

Se eu acreditasse no Pai Natal

Se eu ainda fosse garota e estivesse a viver em casa dos meus pais, pediria este ano para me tirar deste emprego em que nada posso ser do que sou. Não pedia dinheiro a mais, apenas o que fosse dado em troca do que sei e do que aprendi ao longo dos anos que andei a estudar longe de casa para ter o curso que sempre quis.
Escrevería ao Pai Natal a pedir um emprego justo, acho que assim é mais certo.
E também pediria para a malta que andou comigo na publicidade, que não os esqueço. E até para aquele que se escondeu comigo no latão do lixo.
Pediría também para a minha senhoria, várias sobrinhas para lhe encherem a casa e fazerem companhia e ela ter sempre o que lhes contar.
E já que estou em maré de fantasias, pediria também mais um dia, além do dia de Natal, só mais um para ficar com a minha mãe e o meu pai, tenho saudades deles, de casa, da lareira, de quando eu podía ser simplesmente eu sem me esconder em fantasias.
 
 

É proibido rir

Não sei se aguento muito mais este meu novo emprego, mas suponho que terei de fazer das tripas o meu coração e engolir tudo, esticar a mão ao cheque no fim do mês e por o orgulho no bolso, trazer o dinheirinho para casa e pagar as minhas contas.
A verdade é que todos dias aparecem proibições, restrições, olhares reprovadores e eu já não sei como hei-de entrar naquele escritório.
Um destes dias e na pausa de 10m a que a rataria tem direito, estava eu e o rapaz dos expedientes a tomar café. Ele contava que a senhora do fatinho preto já se tinha baldado dos saltos e a queda tinha sido aparatosa. Eu ria, ele ria, tudo na maior surdina para que ninguém ouvisse.
Sinceramente que não sei de onde a mulher apareceu. O rapaz, assim que a viu, nem acabou de tomar o café, atirou com o copo para o lixo e simplesmente evaporou-se!
Fiquei eu, especada, sem saber o que dizer e só a pensar se ela tería ouvido a conversa.
Olhou para o relógio e disse que a pausa já tinha terminado e que ali era lugar de trabalho não de circo. Olhou-me fixamente nos olhos, mas tão fixamente que pensei que mos ía furar.

 

É proibido bocejar

Os meus dias são mais do mesmo, iguais em tudo, uma repetição infindável, carregar no botão do robot para começar e desligar o botão para dar fecho ao expediente. A senhora do fatinho preto chamou-me e deu-me uma advertência: Que levo os dias a abrir a boca. Não percebi. Eu passo os dias calada, nem sequer falo com ninguém, só digo sim ou não, os cumprimentos de boa-educação e nada mais. Nada disso. Que estou sempre com sono. Eu??? Sim, sempre a bocejar. Ah, isso... Fez-se luz na minha cabeça. É bem possível, aborrecida como ando, tudo maquinal, o bocejo é o reflexo do nosso corpo a algo que fazemos de repetitivo introduzindo mais oxigénio no organismo. Hei-de reparar em mim mesma. E reparei. De facto é verdade. Volta e meia, lá estava eu a abrir a bocarra, incontrolável. Tomei nota: Para além dos trajes e das tatoos também não posso bocejar. Isto está a começar a parecer-me uma censura. E eu uma inadaptada. Não estou bem em lado algum. Só sei que estou triste.

 

Rataria

Hoje conheci um rapaz que trabalha a maior parte do tempo na rua. Anda nas conservatórias, tribunais, vai a outros escritórios, recolhe documentos, vai aos bancos, correios, enfim faz recados admnistrativos no exterior para completar os processos dentro do escritório, para que os advogados possam dar seguimento aos assuntos. Tem mais ou menos a minha idade e tem o curso de advocacia por terminar há um século, segundo palavras dele. Eu e ele somos rataria, palavras minhas e ainda dentro da filosofia de vida que eu tinha quando andava a distribuír publicidade pelas caixas de correio. Ou seja, somos pessoal menor. Riu-se. E fez-me bem. Senti-me acompanhada, menos tensa, mais segura de mim. Vezes há em que saber que o nosso infortúnio não é solteiro, é quanto basta para logo uma união nos fortalecer psicologicamente, não querendo com isso dizer, que nos agrada a miserabilidade dos outros ou até nos contentarmos com a nossa. Mas essa companhia de termos um par nas mesmas condições é um conforto para a lembrança. Recordar-me do pessoal da publicidade, trouxe-me à memória dos melhores tempos que passei. Porque será que tudo o que foi parece sempre melhor quando já se foi?
 
 

O 1º dia

Ontem foi o 1º dia no meu novo emprego. De trabalho pouco fiz, mas de aprender, ou melhor, de andar atrás da senhora de fatinho preto, levei o dia inteiro. Isso e de bandeja na mão  a servir cafézinhos, coisa que diga-se, não tenho jeito nenhum. Entornei várias vezes as chávenas, as mãos tremem-me muito e atrapalho-me a bater à porta, abrir a porta e carregar com os cafés, tudo ao mesmo tempo. Disseram-me que é uma questão de prática, que daqui a uns dias estou uma profissional. Mas a verdade é que não me interessa nada andar a servir cafés ou então tería seguido para o ramo da restauração, coisa que não sou vocacionada. Estive sempre stressada e em alerta, nunca relaxei e acho que de tanta tensão nem sequer consegui fixar metade do que ouvi. As pastas de arquivo foram outra complicação. Não consegui perceber porque razão arquivam se têm os documentos digitalizados. É como fazer o trabalho duas vezes! Mas como sou nova, fiquei calada e a remoer. Na verdade devería sentir-me abençoada por ter emprego, mas não me apetece nada voltar lá a pôr os pés, por isso suponho que estes pensamentos fazem de mim uma ingrata.

 

O escritório

Cheguei nervosa, a suar e a tremer de frio, com dores de barriga e a boca seca. Tive mais medo de envergonhar a minha senhoria do que propriamente por mim. Mal eu sabía ao que ía. O sitio é luxuoso ou não fosse um gabinete de advocacia no centro da cidade. Ou seja, mais um sitio que nada tem que ver com a minha licenciatura. Deixaram-se à espera mais de meia-hora, o que me deixou ainda mais ansiosa e me trouxe lembranças daquela entrevista que acabou muito mal. Depois fui encaminhada por uma secretária que parecía estar espartilhada dentro de um fatinho preto, muito direita, para a sala do senhor Dr. qualquer coisa. Foi afável, sorridente, tratou-me pelo nome, terminava as frases sempre com o meu nome, 5 minutos de conversa, seja bemvinda a bordo, o meu nome e estou despachada, e lá voltei para a secretária do fatinho preto. Foi ela que acertou tudo comigo: Horários, ordenado e as minhas funções. Servir cafés, tirar fotocópias, arquivo, fazer recados, o mais se vería. Nada de calçado desportivo nem calças de ganga, nada de piercings nem tatuagens à vista, saias e vestidos até ao joelho e nada mais curto que isso, costas à mostra nem pensar,  há um dresscode a cumprir. Começar na próxima semana. Não sei o que diga, não sei o que sinta.
 
 

Cunhas

A minha senhoria esticou a mão e deu-me um papelinho com um nº de telemóvel. Disse que era de um Dr. qualquer coisa que eu não percebi o nome, marido de uma amiga de uma amiga sua de longa data. Uma confusão. Não entendi e na verdade não estava muito ligada à conversa, só olhava para o papelinho e não percebía que tinha eu a ver com aquela história toda. Era para ligar e combinar uma entrevista. Fiquei atordoada. Tão atordoada que nem falava. A minha senhoria tinha os seus contactos. Tinha falado da sua sobrinha. Eu. E estando eu necessitada de trabalhar e o Dr. qualquer coisa precisado de uma secretária competente, estavam reunidas as condições ideais para um emprego garantido. Foi quando eu me assustei e falei que não era secretária, nem experiência disso tinha, que podía deixar a minha senhoria envergonhada. Mas ela sorriu e disse que confiava na minha inteligência e na minha esperteza. Eu agradeci, um pouco envergonhada por causa do pedido, se não fosse a cunha continuaría à espera de melhores dias ou seja, de nada. Ela zangou-se. Cunha, que palavrão! Dar uma ajuda ao destino.